Pretendo discutir mais futuramente os aspectos do filme que me encantaram particularmente. O que um amante do cinema não pode deixar de notar nesta obra é a força do caráter da atriz Joan Crawford (1915 – 1977) interpretado histrionicamente por uma Faye Dunaway no momento mais almodovariano de sua carreira. Dar uma nota A+ ou F a sua atuação vai depender simplesmente do ponto de vista que se toma. E, contrariando meu prognóstico, já estou eu a falar de Mommie Dearest. Vamos voltar à Joan.
Quem quiser saber um pouco mais do caráter controverso e da filmografia da atriz, que vai de clássicos do cinema noir americano a filmes de terror, passando por uma aparição em série de TV, basta fazer uma busca na internet. Há farta documentação a respeito. Hollywood, como se sabe, sempre criou seus mitos e imortalizou suas divas. Este trabalho de transformação dos atores (principalmente as atrizes) em lendas vivas começou tão logo o Cinema adquiriu seu caráter financeiro, com o advento do Cinema falado. Joan Crawford foi, entretanto, uma exceção. Ela mesma foi a responsável por criar o mito Joan. Ela mesma se estabeleceu como diva, uma vez que a MGM, estúdio pelo qual iniciou sua carreira ainda nos anos 20, se recusava a promovê-la como tal. Mais que uma grande atriz, ela almejava se tornar um mito por toda a vida. Apropriando-se do sucesso que as flappers faziam no contexto do pós-guerra e pré-Depressão, Joan logo tratou de se fazer uma IT girl hollywoodiana emprestando a sua personalidade um pouco deste estilo vanguardista. E se fez diva. Com todos os clichês, peles de animais, cigarros e controvérsias necessários para o estabelecimento do culto de uma estrela de primeira grandeza do Cinema. Era política na escolha dos papéis, na escolha dos maridos e na excelente relação com seus fãs. Sabia alimentar a rivalidade com outras atrizes, escolhendo bem a sua inimiga: Bette Davis. Fez da sua vida uma grande tela, transpôs os mais exagerados dramas da Sétima Arte para sua vida pessoal. Ganhou um Oscar por seu papel em Mildrerd Pierce (1945), algumas nominações e sem dúvidas, colecionou prêmios na vida pessoal. Era fútil, afetada e geniosa. Era obcecada com a beleza e tirana na relação com os filhos e com os homens. Não era fácil ser uma diva hollywoodiana.
Hoje é. Uma legião de loirinhas com caras angelicais, engajadas em causas nobres, vegetarianas na sua maioria, invade o tapete vermelho da meca cinematográfica norte-americana. Os vestidos perderam a extravagância e as peles de animais foram abolidas. Milhões de dólares são doados a vítimas de catástrofes em países preferencialmente pobres. Um séquito de profissionais se ocupa da relação com os fãs, o computador lhes acerta as imperfeições microscópicas: o sorriso levemente torto e os dentes estão sempre impecavelmente retos e brancos-consultório - quando não são naturalmente claros devido aos hábitos de saúde que eliminam o açúcar, o café e o cigarro de suas vidas. A maquiagem é sempre clara, o “menos-é-mais” dita o tom da sobriedade higiênica da aparência. De uma vida esterilizada e harmoniosa. Dos comentários responsáveis e das campanham publicitárias ecologicamente corretas. Seguem mornas na vida como na tela. Não há mais dramas, não há lágrimas, não há atuações pífias, não há comentários bélicos, não há excessos, não há hybris. Como estas moçoilas fazem para alcançar a desmedida necessária para sua atuação? Como são capazes de se desregrarem da simetria burocrática a fim de alcançar o primeiro e mais débil tom do humano? Fazendo questão de separar o papel de sua identidade fora das telas, atuando sempre corretamente, como ginastas olímpicas de passos marcados e movimentos perfeitamente ensaiados e executados.
As primeiras atrizes-robôs invadem Hollywood já na primeira década dos anos 2000, quem poderia imaginar isso? Essas moças, pálidas, de boa índole, orgulhosas de sua origem (ou o que quer que isso queira dizer) – o meu modelo usado para representá-las será Natalie Portman, entre todas as atuais, é a que me causa mais náusea – desfilam pelas ruas em seus vestidos de tons pastéis, pretensiosas de sua responsabilidade como o mundo – nunca com a arte da atuação, mantendo-se sempre numa mediocridade cênica – negando e enterrando o legado que as verdadeiras divas, verdadeiras mulheres, verdadeiras atrizes, construíram com a própria bílis.
Cuidado, Natalie: Miss Crawford aparecerá à noite para assombrar seu sono envolto em lençóis de fibra de palmeira, produzidos numa cooperativa bio qualquer de cunho socialista.


Me lembrei da propaganda da cerveja Devassa. rsrs...
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