Andrei Tarkovsky
Não há dúvida alguma de que Anticristo é o melhor filme da carreira de Von Trier, valendo-nos de suas próprias palavras. Provavelmente o é. Após causar furor em sua exibição em Cannes, onde estreou em maio de 2009, chegou às telas dos cinemas brasileiros causando a mesma sensação de desconforto com que percorreu as principais avant-premières pelo mundo afora. A história, que é dividida em um Prólogo e quatro capítulos – aliás, como é de hábito do dinamarquês: Dor, Luto (Caos Reina), Desespero (Ginocídio) e Os três Mendigos, conta a história de um casal, corajosamente interpretado por Willem Defoe e Charlotte Gainsbourg, atormentado pela morte do filho, cujo luto se desenvolve numa cabana isolada do mundo, sugestivamente chamada de Éden.
Por onde estreou, Anticristo causou repugnância, asco e até mesmo indignação virulenta por parte do público e até mesmo por parte da crítica. Um jornalista, ao final da exibição em Cannes, perguntou à Von Trier “Por que é que o senhor fez este filme?” A este e a todos os outros, o dinamarquês respondeu que fez e faz filmes para si, ele é o seu próprio público. O filme foi acusado de misoginia gratuita, de ser nada mais do que uma tentativa equivocada de um terror-psicológico. Mas esta é a questão principal de Anticristo. O filme incomoda – esta é a principal função de uma obra de arte: deslocar o sujeito da sua zona de conforto e levá-lo a outro lugar. Seja por sua aparente plasticidade diante de uma cena de horror no Prólogo, seja pela sua mudança repentina de drama familiar para terror, cuja reviravolta inusitada, pincelada por imagens que certamente permanecem vivas na memória dos espectadores ainda hoje, causam riso ou admiração: as imagens sangrentas, a belíssima e famosa ária Lascia ch’io Pianga, de Handel, na voz da norueguesa Tuva Semmingsen, cantada durante o Prólogo (momento cinematográfico de pieguice extrema), as atuações sinceras dos protagonistas e a fanfarronice quase pueril de um Von Trier que nos inquieta: estaria ele louco? Precipitado? Recuperado de sua tão alardeada depressão?
Todas estas questões parecem menores se comparadas à grandiosidade dissimulada do Anticristo. Não vou me prender ao clichê crítico que dominou os cadernos de jornal, que tentaram desvendar algumas dos inúmeros símbolos que o diretor traz à tona: a começar pelo layout do título, onde o último T da palavra ANTICHRIST tem a forma de um espelho de Vênus. Eis o fantasma da misoginia já instalado antes mesmo de o filme começar: seria a Mulher o Anticristo? Ó, meu Deus, símbolos, símbolos, chamem um especialista!
Afinal, quais seriam as "simbologias" por trás dos animais presentes no filme: o cervo em trabalho de parto, que caminha pela floresta com o feto pendendo de si, o corvo e a raposa? A meu ver, os símbolos não representam nada, não querem dizer nada. É apenas o bom e velho Von Trier no pleno exercício de sua ironia fina. Chego a visualizá-lo em sua casa, se masturbando de prazer só de pensar nas reações indignadas do público. Nas vozes que bradam e rejeitam a qualidade do filme. Nos releases e nas propostas de análise. Pelo pouco que sabemos do dinamarquês, essas cenas não foram simplesmente jogadas no filme. Foram, ao contrário, cuidadosamente pensadas. Já disse no post anterior em relação a Mommie Dearest (1981) e repito aqui: dar uma nota A+ ou F vai depender do ponto de vista. Para mim, é um filme muito ruim. Mas um dos melhores em sua digamos categoria. Só Von Trier tem o talento para fazer uma obra tão mal feita com tamanha qualidade e brilhantismo. É Les fleurs du Mal do Cinema. É Sautine em movimento. Por esta razão, dou a ele um A+. Pelas impagáveis e hilárias cenas de automutilação de Gainsbourg. Pelo momento mais nonsense da história do Cinema: A raposa falante. Chaos reigns. O sorriso que nasce desta cena é um dos mais raros: é o sorriso da verdadeira e fina comédia.
Embora tenha optado por não trazer à baila questões que a meu ver são lugar-comum, não posso deixar de falar do rótulo terror-psicológico com o qual etiquetaram a queima-roupa a obra de Von Trier. Pensei num paralelo entre Anticristo e O Iluminado, do mestre Stanley Kubrick (1928 – 1999)... A personagem de Charlotte Gainsbourg apresenta algumas semelhanças com o Jack Torrance vivido por Nicholson: ambos se sentem profundamente deprimidos e buscam um refúgio que se revela, com o passar do tempo, o lugar de ignição de seu desequilíbrio psíquico. Ambos apresentam variações de humor bruscas, lesam – ou procuram lesar – seus filhos e sua loucura vai sendo paulatinamente introduzida ao longo do filme, mudando integralmente a maneira como o espectador os via no início do filme. Isso sem contar ainda com a clássica cena da perseguição ao cônjuge, em meio à neblina intensa, cenas estas verdadeiramente antológicas para o cinema (A famosa cena “Wendy, I’m home!”, proferida por Torrance ao estraçalhar a porta a machadadas atrás de sua acuada esposa escondida no banheiro e a tentativa desesperada de Defoe de se esconder de uma Gainsbourg descontrolada que o caça pela floresta, enquanto este busca abrigo na raiz de uma árvore onde momentos antes os dois se entregaram intensamente ao sexo. A referência pode ou não ser verdadeira, os grandes diretores sempre estão a revisitar outras obras. Não nos esqueçamos que Von Trier faz uma homenagem a Andrei Tarkovsky (1932 – 1986) – quem se lembra de Stalker (1979) e está em busca dos símbolos “escondidos” em Anticristo, vai fundir o cérebro: neste filme do diretor russo também há a presença de uma raposa passeando pela floresta.
A demonização da mulher, óbvia neste filme, pode ser uma resposta de Von Trier a uma crítica já antiga que o acusa de misoginia. Se pensarmos em suas antigas protagonistas, vemos uma Nicole Kidman que é agredida, amarrada e violentada em Dogville (2003); uma sofredora e por fim estrangulada Björk em Dançando no Escuro (2000), além da inesquecível Emily Watson, prostituta brutalizada em Ondas do Destino (1996). Mas nenhuma dessas chega aos pés da satanizada Charlotte Gainsbourg, que encarna talvez todas as mulheres do mundo.
Antes que um spoiler – até porque não acredito que haja este conceito para uma obra com a de Von Trier – as afirmações acima serviram para dar algum sentido às controversas sequências de tortura e declarada misoginia, salpicadas por momentos irritantes em que a câmera oscila e alterna o foco, bem longe do estilo Dogma, obra que deu ao dinamarquês o status que hoje ele possui.
Polêmicas à parte, simbolismos a serem decifrados pelos aficcionados por “obras” do tipo Código da Vinci, filme a ser discutido como pilar da misoginia contemporânea, o que sobra dele é a expressão tragicômica maior e mais requintada da despretensão de um Von Trier indecifrável, é verdade, mas absolutamente imprescindível para os amantes incondicionais da Sétima Arte.


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