Joel Black, professor de Literatura Comparada
da Universidade da Geórgia.
Este post é apenas um ctrl + c / ctrl + v de um trabalho antigo para a faculdade que fiz sobre a Ultraviolência como estética de gênero literário, abordando suas principais implicações e características na obra Laranja Mecânica, (1962) escrita por Anthony Burgess (1917 - 1993) e brilhantemente adaptada para o cinema por Stanley Kubrick (1928 - 1999). Uma ressalva a ser feita: as linhas seguintes não tiveram/têm nenhuma pretensão de liquidar o tema proposto, nem muito menos abraçar todos os ângulos possíveis de percepção das obras. O desafio maior deste trabalho foi justamente o de síntese das idéias, o de introduzir, para mim, o conceito de Ultraviolência, que se vislumbrava como uma estética muito interessante no início da minha maturidade (oi?) artística, em 2007.
O termo Ultraviolência foi usado pela primeira vez no livro Laranja Mecânica, do inglês Anthony Burgess, para se referir a atos de extrema violência totalmente aleatórios e injustificados. É a violência pelo prazer da violência.
O livro relata as experiências do jovem Alex, cujos principais interesses eram “ultraviolência, estupro e Beethoven”. Acompanhado de seus amigos droogs, ele vive numa Inglaterra distópica, vagabundeando pela noite, cometendo atos de natureza subversiva – para usar um eufemismo - como forma de diversão.
Depois de ser condenado por um de seus crimes, Alex vai para a prisão e lá se submete a uma técnica de recuperação de criminosos, uma espécie de tratamento pavloviano de condicionamento de caráter chamado Método Ludovico. Esse método consistia em submeter Alex a uma sessão de filmes em que eram mostradas cenas de violência – cometidas pelo próprio – ministradas junto a doses de drogas que causavam náusea e sensação de mal-estar. À maneira de Skinner, o comportamento de Alex passou a reagir negativamente a quaisquer estímulos de violência.
Ao sair da prisão, Alex está “socialmente recuperado”, mas passa a ser vítima de suas antigas vítimas, impossibilitado de se defender e mentalmente perturbado. A crítica do autor ao sistema correcional vigente foi curta e clara: o Estado preparou Alex para a sociedade, mas não preparou a sociedade para ele. Alex não é um sujeito violento que vive numa sociedade pacífica. Ao contrário, é um sujeito sensível que de algum modo captura artisticamente o caráter animalesco e hostil do seu meio.
Laranja Mecânica é uma obra assaz inovadora e cada nuance merece um estudo detalhado, feito que se torna impossível para este propósito. Desenvolverei a questão da esteticização (não encontrei essa palavra no léxico português, portanto tomei a liberdade de traduzi-la diretamente do termo inglês – aestheticization) da violência sob alguns aspectos, dentro da obra de Burgess e considerações sobre a adaptação para a linguagem cinematográfica de Kubrick.
‘What’s it going to be then?’ é o convite de Alex.
Eu o aceitei.
A esteticização da violência foi tratada academicamente pela primeira vez por Thomas de Quincey em 1827. O crítico literário inglês publicou um artigo chamado On Murder considered as one of the Fine Arts onde defende que a morte pode ser tratada de uma maneira sublime e estética. De Quincey influenciou diretamente dois grandes nomes da literatura mundial com seus artigos ácidos e seu humor negro: Charles Baudelaire e Edgard Allan Poe.
Esse senso de violência estética atingiu no século XX o seu auge, tanto na cultura erudita quanto na popular. Já na era pré-hitleriana, a publicação do livro de Maria Tatar chamado Lustmord: Sexual Murder in Weimar German, analisa justamente a esteticização da morte e sua representação artística. Corpos femininos mutilados são vistos e apreciados como obras de arte. A autora estabelece uma relação entre gênero, crime e representação num estudo interessante sobre o tema. Alguns críticos de arte consideraram o livro como uma contribuição profunda e provocativa da atual percepção de sexualidade e esteticização da violência na cultura moderna.
Donald Cammell, cineasta escocês, olhou para a violência como um artista olha para uma tela. Cammell estudou tão a fundo a questão da morte, a considerava tão fascinante que cometeu suicídio de uma maneira artística: atirou na própria boca de modo a ter uma morte ao mesmo tempo indolor e prazerosa. Para isso, tomou pílulas para não sujar o tapete preferido de sua esposa com sangue e utilizou-se de um espelho para se observar enquanto atirava contra si.
No cinema, nenhum assassino é tão lembrado quanto Dr. Hannibal Lecter, da trilogia de O Silêncio dos Inocentes (1991). O personagem de Anthony Hopkins era culto, ouvia música clássica, cometia seus crimes de uma maneira elegante e original. Há uma cena inesquecível no segundo filme, Hannibal (2001), em que o psiquiatra mantém uma vítima dopada enquanto a lobotomiza, obrigando-a a comer um pedaço do próprio cérebro flambado numa frigideira, um refinado gourmet a serviço da alta gastronomia.
O termo ultraviolência representa a quebra do significado de cultura pura, clássica érudita. Mostra ainda a fragilidade da noção débil de sociedade distópica, muito teorizada e literalizada nas primeiras décadas do século XX. Só para citar uma outra obra literária de mesma abordagem, temos o não menos excelente Brave new World (1931), de Adolf Huxley. Essa distopia é a antítese da utopia, revelando uma sociedade excessivamente opressora, totalitária e até mesmo fascista Ao contrário da anti-utopia, a distopia não finge ser boa. O herói distópico passa a ser paralelamente associado ao anti-herói da sociedade moderna. Alex é o clássico representante do herói distópico em Laranja Mecânica. O personagem é o narrador onisciente da própria história, cria uma gíria para o seu grupo, batizada por Burgess de nadsat (adolescente em russo), que é uma mistura de palavras inglesas e eslavas. O que se nota de imediato sobre essa gíria é a fusão de palavras russas com construções gramaticais inglesas, em pleno auge da Guerra Fria, como se houvesse, também na expressão lingüística, uma espécie de revolta ao paradigma social estabelecido.
Outro ponto marcante para o desenvolvimento da questão estética da ultraviolência é em relação ao gestual dos personagens. Alex se apresenta como um verdadeiro dândi futurista. Durante a narrativa, o droog sempre demonstra preocupação com a indumentária, estando “dressed in height of fashion”. No filme, Kubrick se utiliza dos close-ups para acentuar essa característica do livro. Enquanto Burgess exagera na descrição em detalhes das vestimentas dos personagens, o cineasta logo na primeira tomada do filme “descreve” a maneira como Alex se veste. A câmera o foca a partir do olho e se abre até que o droog seja visto por inteiro. Interessante essa passagem do livro, após os droogs surrarem um anônimo na rua, que mostra a preocupação de Alex com o estado de Dim após uma sessão de tortura:
“De nós quatro, como de hábito, o Tapado (Dim, em inglês) foi quem ficou em pior estado, do ponto de vista da apresentação, e as pletes eram uma sujeira só, mas nós, os outros, estávamos ainda fresquinhos e compostos” (pág 8)
Durante a invasão à casa do escritor, Alex adverte seus amigos que não façam barulho ao comer. No filme, as cenas de espancamento, estupro e invasões eram acompanhadas de músicas clássicas como background. Fora isso, havia todo um tratamento coreográfico das cenas em questão, tornando-as agradáveis de serem vistas. Já no livro, o que se observa é a narração detalhada e montada de forma a embelezar o ato da violência. Para os droogs, dinheiro não era importante. O que os deixava de fato excitados e felizes era poder exercer a boa e velha ultraviolência.
O caráter acentuadamente dandista dos personagens reflete a reação ao “não-ser” imposto pelo Estado. Uma vez em que o estado não permite o mal, age coercitivamente na individualidade dos cidadãos. Vestindo-se e falando de uma maneira exótica, Alex acentuava a sua diferença em relação aos outros e destacava a sua individualidade.
O autor Burgess lutou na Segunda Guerra Mundial, e algumas reflexões foram irradiadas para o seu romance, como por exemplo, o excesso de selvageria e brutalidade nas batalhas que visavam à construção de um mundo justo e igualitário no futuro. Usou ainda o “height of fashion” dos ultraviolentos como comparação aos modelos militares de nazistas e de japoneses (inimigos de guerra da Inglaterra).
Um olhar sobre a passagem “A grande música, diziam, e a grande poesia, aquietariam a juventude moderna e fariam a Juventude Moderna mais civilizada” remete uma resposta irônica à teoria platônica de que os poetas deveriam ser banidos da República ideal, uma vez que construir narrativas interessantes sobre comportamentos imorais poderia corromper os jovens.
A grande música a qual se refere Burgess pode ser a Nona de Beethoven. É a sinfonia mais apreciada por Alex, e era constantemente associada às propagandas nazistas à época de Hitler. A música tem um papel muito importante para a esteticização da violência em Laranja Mecânica. Especialmente a música alemã, que era considerada por Nietzsche como a síntese do espírito dionisíaco. Este espírito dionisíaco da destruição, do sparagmós, da violência, leva a um questionamento interessante: a arte deve ser boa? O que é bom, o que é ruim, na verdade? O homem que escolhe o mal é, de certa forma, melhor do que aquele a quem a bondade é imposta? Dessa maneira, se não há escolha, o homem deixa de ser humano. É a arte, não a moral, -aponta Nietzsche - que é apresentada como atividade essencialmente metafísica do homem. Daí a conclusão de que o Deus cristão nega a arte, por relegar a arte a uma posição moralmente controlada. Em Laranja Mecânica, Alex faz menção a esta postura anticristã quando tem um sonho na prisão, em que ele era o algoz romano de Jesus Cristo – vestido no último rigor da moda romana, claro. Ainda substitui o termo perdão por “setenta-vezes-sete” e diz que as religiões pregam o amor enquanto judeus matam judeus em seu livro Santo, fato que lhe causa estranheza.
Embora a obra tenha por mote central o exercício da ultraviolência como estética, sem um uso justificado, a obra torna-se estranhamente paradoxal por levantar questionamentos de ordem moral e social extremamente delicados. Aparentemente justificando a violência pela violência, a manifestação espontânea da arte como ímpeto criador, taxada por muitos da crítica marxista de obra fascista, Laranja Mecânica deixa alguns questionamentos a serem – ou não - respondidos. A meu ver, é totalmente anti-fascista exatamente por seu caráter irônico e questionador. Se a juventude é violenta porque os jovens se tornam pequenas máquinas orgânicas sem vontade própria – a laranja mecânica strictu sensu - qual seria a pré-condição para a moralidade? Como e quando as pessoas poderiam desenvolver espontaneamente a free will sem que isso lhes fosse imposto por alguém? Se a violência é uma fase, porque a juventude de hoje deveria ser mais violenta que a de ontem? Como alcançar a bondade nos níveis social e individual sem recorrer a métodos behavioristas, que procuram condicionar padrões comportamentais através de tratamentos cruéis?
A arte, a literatura e as idéias devem ter conseqüências sociais profundas, e não necessariamente favoráveis.
“A existência do mundo não pode se justificar senão como um fenômeno estético, nada mais”. – Friedrich Nietzsche.


Olá, professor. Eu gostaria de adicionar um fragmento do seu texto em uma pesquisa que eu estou fazendo. E gostaria de ter seu sobrenome para creditar... O sr. poderia me mandar por e-mail caso esteja de acordo?
ResponderExcluiranacarolinabuim@gmail.com