
II – Shakespeare e o Cinema
Não é surpresa, dado seu status de mais celebrado e conhecido escritor do idioma inglês, que William Shakespeare (1564-1616), direta ou indiretamente, tenha inspirado um grande número de produções fílmicas baseadas em suas obras. Segundo o Guinness Book 2009, o bardo é o autor com maior número de adaptações para as telas (para o cinema e TV constam 736). O site IMDB (Internet Movie Data Base) diverge destes dados, apontando uma soma significativamente mais robusta: só para Macbeth, 81 títulos, entre adaptações fílmicas e televisivas, perdendo em quantidade somente para Hamlet, peça mais adaptada, com mais de 150 títulos ao redor do mundo, de acordo com o mesmo site.
Hutcheon nos lembra que William Shakespeare foi, se não o maior, um dos maiores adaptadores de seu tempo. Suas peças são recriações de histórias, mitos, relatos e novelas, transpostos para o universo do teatro, cujo êxito dispensa maiores explicações. Jorgens faz coro à Hutcheon, apontando-nos que o poeta inglês recriava os textos ao prazer do gosto e do estilo elisabetanos, atualizando-os livremente. Liana de Camargo Leão, em seu artigo Shakespeare no Cinema, nos lembra que o primeiro filme shakespeariano, King John, data de 1899, apenas cinco anos após a primeira exibição de A saída dos operários da Fábrica Lumière e A chegada do trem à Estação Ciotat no subterrâneo do Grand Café em Paris pelos irmãos Lumière. A autora também destaca a porcentagem de filmes mudos inspirados no bardo, basicamente de origem britânica: dos 500.000 filmes feitos de 1896 a 1929, entre 400 e 500 se voltaram para as adaptações de Shakespeare. Na passagem para o Cinema falado, entretanto, o primeiro filme shakespeariano rodado na Inglaterra – As you like it - data de 1936, enquanto Hollywood já tinha filmado The Taming of the Shrew (1929), A Midsummer Night's Dream (1935) e Romeo and Juliet (1936). A lista de todas as adaptações shakespearianas pode ser encontrada no site IMDB e no interessante e didático Screen On Line, organização inglesa que preserva um número expressivo de fragmentos raros dos primeiros registros audiovisuais, tanto do bardo quanto de outros autores e poetas ingleses que serviram de inspiração para os cineastas ao redor do mundo.
Todos estes números acima são expressivos e nos mostram a evidente importância de Shakespeare para a acima mencionada legitimação do Cinema. Buscando respaldo artístico no dramaturgo inglês, os cineastas conseguiam não só atrair as massas para o cinema e conquistar um público usando a “marca” William Shakespeare, como também agregavam valor a sua arte, respaldando-a no poeta inglês. Jorgens nos aponta que o Cinema oferece melhor possibilidade de redescoberta da popularidade de Shakespeare que as encenações atuais das peças do autor. Os puristas rangeram os dentes para esta afirmação do teórico, mas ele nunca esteve tão correto em sua análise: milhões de pessoas passam a ter acesso à obra de Shakespeare com o advento do Cinema.
III - Macbeth e o Cinema
Dada a sua popularidade – as pessoas tendem a gostar muito do enredo - e a sua brevidade – seguramente a tragédia mais curta de Shakespeare - Macbeth é uma de suas peças mais filmadas, segundo vimos anteriormente. O primeiro registro fílmico da tragédia data de 1911, mas não se conservou, infelizmente, nem um só frame. Cada adaptação de Macbeth que estudaremos constrói uma tensão entre o herói, a sociedade da qual ele faz parte e o Destino, tendo Lady Macbeth e as bruxas como forças mais ou menos poderosas, segundo a análise de Jorgens. Orson Welles, Akira Kurosawa e Roman Polanski mostraram a ascensão e a queda do herói, desenvolvendo diferentes mecanismos fílmicos em que essas forças atuam. Os diretores propuseram, como nos lembra E. Pearlman em seu artigo Macbeth on film: politics (2004), preencher algumas lacunas deixadas pelo bardo, e, ainda, apontar novos caminhos para personagens ou situações existentes na peça.
Embora tenhamos um sem-número de análises interessantes a respeito de cada uma destas adaptações, visto que os três diretores souberam se apropriar muito bem do texto-fonte em que se basearam, nos restringiremos às passagens que dizem respeito às bruxas e à Lady Macbeth, mostrando como elas foram representadas em cada uma das adaptações.
Nenhum comentário:
Postar um comentário