segunda-feira, 18 de abril de 2011

Shakespeare e o Cinema: A (re)configuração das identidades femininas em Macbeth (Parte I)

Este post inicial contará do resultado de um trabalho realizado durante dois anos sobre Shakespeare na Faculdade de Letras, orientado por uma das maiores especialistas brasileiras na obra deste que, para mim, é um dos maiores artistas de todo o mundo.
No final desses dois anos, este foi um dos artigos que apresentei no Seminário de Estudos Anglogermânicos da Faculdade de Letras no ano de 2010, no quadro do grupo de pesquisa de Pós-graduação em estudos de gênero e identidade, no programa de Linguística Aplicada.


“In short, to adapt is no longer to betray but to respect”

(André Bazin, For an Impure Cinema: In Defence of Adaptation)

I – A Literatura e o Cinema

A arte de adaptar textos literários (romances, contos, novelas, peças de teatro, crônicas, etc) tem muitos adeptos ao redor do mundo. O número de releituras destas obras, ao longo de pouco mais de um século de existência da Sétima Arte, chama a atenção tanto por sua quantidade quanto por sua qualidade. Cientes de que romperiam com a tradição auditiva (se pensamos na literatura e no teatro, em que as histórias eram “vistas” com os ouvidos, com os olhos – e até mesmo com a imaginação), os estudiosos do Cinema já apontavam para a revolução que se instauraria em relação à própria platéia, dizendo que ela passaria a ouvir com os olhos.

A Literatura apareceu, portanto, como um excelente estímulo para o desenvolvimento do status artístico do Cinema. Inúmeras adaptações de obras literárias surgiram ainda na era do Cinema mudo. É digno de nota atentarmos para este fato, pois uma vez que a arte literária é feita essencialmente de palavras, uma transposição entre as duas linguagens, neste estágio não-sonoro, seria feita unicamente através de imagens, numa espécie de decodificação cuja intertextualidade é motivo de embates acalorados e discussões polêmicas, sempre questionando a capacidade de uma arte mais expressiva, de exposições diretas de conteúdo, de traduzir outra, marcada pela impressão, de exposições mais sugestivas.

Acontece que toda adaptação fílmica funciona como uma espécie de tradução, e como tal, nunca será cópia fiel e exata do “original”. Sobre este ponto, Linda Hutcheon tem muito a nos dizer. A autora demonstra em sua obra A theory of adaptation (2006) que as adaptações começaram a ser mal vistas a partir do século XIX. Ela nos aponta como o romantismo e sua necessidade autoral, do “eu”, concorreu para que este preconceito chegasse ao século XX e atingisse especialmente o Cinema. Jack J. Jorgens, em sua obra Shakespeare on Film (1977), reforça a idéia de Hutcheon, apontando que muitos foram os que escreveram sobre os problemas em transformar obras literárias em filmes, mas poucos falam das possibilidades deste modo de recriação. O autor rebate os argumentos que propõem uma pretensa incompatibilidade de linguagens, dado os aspectos formais característicos de ambas, dizendo que não se pode mais olhar para o Cinema com o olhar “realista” de outrora, ou seja, com a visão de que o Cinema tem por função apenas mostrar, retratar ou expor, de forma mais clara e objetiva possível, um fato ou uma história. O autor argumenta que definir o que é Cinema, usando as convenções tradicionalmente atribuídas à Sétima Arte, é tomá-lo por sua mais óbvia e simplista característica. É absurdo, portanto, propor uma incompatibilidade de linguagens, dadas o novo cenário do Cinema e da Literatura atuais. Jorgens frisa a importância da Sétima Arte como veículo de adaptação eficaz das peças shakespearianas, pois de acordo com este autor, assim como no palco, no cinema se convive tanto com os signos verbais quanto com os não-verbais

Claro que há adaptações desastrosas, como há livros de péssima qualidade. Geralmente, o foco do estudo acadêmico das adaptações cinematográficas é tão somente os filmes cujo êxito é comprovado não pela fidelidade ao original, mas pela capacidade de cada cineasta de apresentar uma nova proposta da “idéia original”. Quanto a este ponto, a academia também começa a rever seu ponto de vista um tanto quanto tradicionalista e preciosista. Ainda bem.

Para este trabalho, escolhi analisar três adaptações da peça The Tragedy of MacbethMacbeth[1] de Orson Welles (1948), Trono Manchado de Sangue (1957) de Akira Kurosawa e Macbeth de Roman Polanski (1971). A escolha destas obras se deu de modo a privilegiar as adaptações feitas exclusivamente para o cinema por diretores de renome, cujos filmes foram de acentuada relevância, obtendo êxito e arrebatando platéias ao redor do mundo, sem, contudo, tirar os méritos de outras adaptações também importantes, a saber: Joe Macbeth (1955) de Ken Hughes, Macbeth (1960) de George Schaefer, e ainda Homens de Respeito, (1991), de William Reilly.

Este trabalho tem por objetivo investigar as (re)configurações das identidades femininas demoníacas nestas três adaptações (Lady Macbeth e as bruxas – the weird sisters). Veremos como estas personagens são visualmente concebidas e retratadas, quais delas ganharam ou perderam força em relação à tragédia, qual a proporção em que aparecem em relação ao total do filme, bem como levantaremos hipóteses sobre as motivações que levaram os diretores a estes possíveis (re)arranjos.


[1] Os filmes lançados no Brasil terão, neste artigo, seus nomes escritos em português, enquanto que os filmes cuja distribuição ficou restrita aos Estados Unidos e à Europa conservarão seus nomes originais.

Vivien Leigh, como Lady Macbeth.

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