terça-feira, 26 de abril de 2011

É proibido assistir a novelas


Depois de protelar por muito tempo, resolvi finalmente assistir a um dos últimos filmes que Glória Pires protagonizou, É proibido fumar (2009, dir. Anna Muylaert). Antes de me enveredar pelo caminho cinematográfico, eu era um noveleiro de mão cheia. Torçam o nariz aqueles que cospem para o lado ao ouvir falar em novela: "gênero popularesco, tramas superficiais, domínio da Vênus platinada, arrgh, Deus me livre, nunca vi uma novela na vida. Nem tenho TV em casa!". Para estes burgueses-caviar, canalhas culturalescos e demais da mesma corja, sinto desapontá-los: Shakespeare era popularesco em seu tempo. As tragédias gregas foram representadas até por escravos (denúncia!) e tinham um apelo nada aristocrático, entretendo de nobres a mendigos. Vou além: o samba dito "de raiz", modinha em todas as baladas da Zona Sul carioca, objeto de profícuo e sério estudo acadêmico, representou para sua época o que o funk significa para a nossa.
Tudo isso é -também - culpa do nosso ranço colonialista, que nos colocou em maus lençóis culturais: os produtos estrangeiros (franceses de preferência) têm um status de cultura superior per si. Tudo o que é popular ganha um selo ilegítimo, é legado ao gueto, desenvolve-se marginalmente. Novela é produto brasileiro e não pode ser cultura. (Insira aqui o autor-cretino que você usa como referência nas suas aulinhas da ECO).

Glória Pires, uma das maiores atrizes de todos os tempos, sempre foi vista com maus olhos por estes senhores. Nascida (literalmente) nos estúdios de TV, a atriz adquiriu notoriedade nacional e internacional interpretando papéis na TV. Esta mesma atriz sempre foi acusada de atuar pouco nos palcos e no cinema: "Pra mim, atriz que não atua no palco não é atriz" bradam os indóceis panfletários da Culturona.
Pois bem, com esta tendência incorrigível à obtusidade, retomo o parágrafo inicial e falarei sobre a atriz Glória Pires (agora posso chamá-la de atriz, pois ela fez um filme que obteve sucesso da crítica, correto, Doutores?). Uma das coisas mais sinceras de um filme, qualquer que ele seja, sua qualidade mais espetacular, é a despretensão. É proibido fumar é um filme que narra o cotidiano de uma professora de violão, Baby, às voltas com seu universo particular e sua súbita paixão pelo mocinho mais carismático e subversivo dos últimos tempos: Max (Paulo Miklos). Roteiro para cinema francês nenhum botar defeito. Um trecho aleatório de Virgínia Woolf nas telas.
E Glória, no momento mais sublime da sua carreira. É muito legal acompanhar a carreira de um artista que a gente admira. Ela empresta à Baby uma humanidade que parece querer se descolar da tela e tombar no nosso colo. A personagem não tem de longe os bordões célebres e geniais das suas "irmãs-personagens" mais famosas, como Raquel Assumpção (que também fumava) ou Maria de Fátima, mas possui uma sinceridade que não é realista -pois isso seria um crime contra a arte do Cinema -mas verossímil.

A uns três posts abaixo eu reclamava das divas atuais. Glória empresta sua expressão praticamente despida de maquiagem à personagem, traz o cigarro de volta num importante papel dentro da narrativa, justamente na época em que ele é banido das telas, além de nos brindar com uma atuação madura e justa. Cada um de nós tem uma Baby, e essa identificação só é possível porque esse tom humano, no qual eu insisto tanto, foi atingido. Coisa que só uma grande Diva do Cinema é capaz de fazer.
Alguém pode pensar que estou supervalorizando o filme. Na verdade estou colocando-o no seu devido lugar. Este filme, se tivesse sido rodado em língua estrangeira, por atores estrangeiros, teria tido um valor diferente do que tem hoje, acredito. Não sei o que acontece com o Cinema Nacional. Aliás, o que não acontece. Depois do Cinema Novo, da pornochanchada e de uma vasta cinematografia marginal - produtos interessantemente brasileiros e movimentos únicos no âmbito do Cinema mundial - nossas produções andam apelando para o lugar-comum visando o box-office.
É proibido fumar é ar fresco em nossas produções, é uma afirmação de nossos atores, de nossos diretores, de nossa cultura. É possível, sim, o Cinema Nacional. Glória Pires é, sim, uma grande atriz, em pleno exercício de sua maestria cênica.
Glória neles!

2 comentários:

  1. Texto muito lúcido, você conseguiu escrever o que muita gente, assim como nós, adoraria verbalizar! Gloria Pires é a maior atriz do Brasil, isso é fato! E, ao lado de Meryl Streep e Glenn Close, forma o trio superlativo da arte de interpretar. "É Proibido Fumar", em minha opinião de espectador - e de biógrafo e amigo de Gloria - é o seu melhor trabalho na Sétima Arte. Roteiro simples, mas funcional, um texto leve, divertido, por vezes forte, nos remete à ideia de que o Cinema Nacional hoje em nada se parece com o do passado. Graças a Deus!

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  2. Olha, Vivien Leigh e Gena Rowlands também merecem e muito este posto de diva. Obrigado pelo seu comentário, querido.

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